Pesquisador identifica variedade de abacaxi resistente à fusariose e adaptada ao clima semiárido da Bahia

O abacaxi é uma das frutas mais produzidas e consumidas do país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, a produção foi acima de 1,67 bilhões de frutos. Embora não seja um dos maiores produtores do Brasil, o estado da Bahia tem participação importante na oferta desta fruta, com cultivos de destacada relevância social, sobretudo na região semiárida, a exemplo dos municípios de Itaberaba e Umburanas. Com o intuito de potencializar a plantação de abacaxi no território baiano, com foco em Itaberaba, o pesquisador Davi Junghans, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, desenvolveu um estudo chamado “Novas Alternativas para a Produção de Abacaxi no Semiárido da Bahia”, em parceria com a EBDA, UFRB e a Coopaita, cooperativa local dos produtores de abacaxi.

Um dos principais objetivos da pesquisa era verificar o comportamento agronômico de variedades da Embrapa na condição semiárida, comparado com o da ‘Pérola’, cultivar tradicional no Nordeste, mas suscetível à fusariose. Esta doença, também chamada de resinose ou gomose, é a principal responsável por perdas na produção de abacaxi no Brasil. Entre os quatro materiais testados, a variedade BAG 344 apresentou adaptação às condições ambientais da região. “Esta variedade, obtida na coleção de abacaxi da Embrapa, foi coletada há anos na Amazônia. É espinhosa, resistente à fusariose e se comportou muito bem, mesmo na pior condição de plantio, de sequeiro (sem irrigação). Seu fruto tende a ser cilíndrico, com polpa creme”, explica.

O projeto, desenvolvido entre 2015 e 2020, teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), por meio do Edital de Fruticultura. Além da própria Embrapa e da Fapesb, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem dado apoio financeiro ao Programa de Melhoramento Genético de Abacaxi em várias oportunidades.

Embora apresente resistência genética à doença, que dispensa o uso de fungicidas, a fruta gerada pela 344 é pequena (em torno de 1,1 Kg). Segundo o agrônomo, este resultado, aparentemente negativo, pode ser visto com outro olhar. “O consumidor brasileiro está acostumado a comprar com os olhos. Apesar do fruto ser menor que o da ‘Pérola’, utilizamos aquela variedade no cruzamento com cultivares comerciais. E, entre as progênies obtidas, selecionamos híbridos superiores. Estes híbridos foram avaliados em diferentes regiões produtoras de abacaxi do Brasil (três delas na Bahia) e os resultados obtidos têm sido animadores. Pelo menos quatro híbridos foram identificados como promissores, todos filhos daquela variedade selecionada em Itaberaba. Estes híbridos se mostraram resistentes à fusariose e com produção de frutos de excelente qualidade, em tamanho e sabor”.

As mudas destes híbridos obtidos na Bahia são testadas em outros estados. “Instalamos recentemente um ensaio agronômico com estes híbridos na Paraíba e, anteriormente, montamos outros ensaios no Brasil afora, em parceria com produtores e instituições de ensino ou pesquisa locais. Nestes ensaios, avaliamos a adaptabilidade dos híbridos às diferentes condições ambientais locais, e os resultados obtidos têm sido muito positivos. São filhos dessa variedade, BAG 344, selecionada pela condição de adaptação ao clima duro do semiárido. É um resultado bastante animador, um trabalho que começou com o projeto apoiado pela Fapesb e está sendo multiplicado pelo país”, revela o agrônomo.

O próximo passo da pesquisa é o lançamento de novas cultivares de abacaxi. “Prevemos o lançamento a partir de 2023 destas novas cultivares. Para este lançamento, futuramente serão estabelecidas parcerias da Embrapa com produtores/viveiristas. No caso de Itaberaba e região, a ideia é utilizar a infraestrutura para produção de mudas pela técnica de seccionamento do talo, para multiplicar as novas cultivares de abacaxi. Essa infraestrutura foi instalada na sede da Cooperativa Nacional de Produção e Agroindustrialização (Coopaita), durante a execução do projeto com recursos da Fapesb”, diz.

A pesquisa que começou na Bahia abriu fronteiras e conta atualmente com a colaboração de instituições como Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA – campus de Conceição do Araguaia), Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves-BA e também dos produtores de abacaxi da região de Itaberaba e demais polos abacaxícolas.

Bahia Faz Ciência

 A Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e a Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb) estrearam no Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, 8 de julho de 2019, uma série de reportagens sobre como pesquisadores e cientistas baianos desenvolvem trabalhos em ciência, tecnologia e inovação para contribuir com a melhoria de vida da população em temas importantes como saúde, educação, segurança, dentre outros. As matérias são divulgadas semanalmente, sempre às segundas-feiras, para a mídia baiana, e estão disponíveis no site e redes sociais da Secretaria e da Fundação. Se você conhece algum assunto que poderia virar pauta deste projeto, as recomendações podem ser feitas através do e-mail comunicacao.secti@secti.ba.gov.br.

Kleber Medrado

Kleber Medrado é Jornalista com registro profissional 0006598/BA, editor Chefe do SeLigaChapada.com.brDesde 2013 trazendo informações da região Chapadeira para o mundo.

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