Mucugê mostra a força e união das mulheres na preservação da cultura popular

Uma das mais belas atrações naturais e humanas da Chapada Diamantina, a histórica e acolhedora Mucugê foi palco nos últimos quatro dias, de quinta-feira (6) até este domingo (9) da Festa de Reis, uma manifestação cultural e religiosa, que envolve toda população, sem distinção de raça, cor ou credos. Na quinta e sexta-feira, o reisado Burrinhas de Ouro, formado por homens, festejou a cultura popular e atraiu grande público.

Mas, no sábado e domingo a festa foi maior ainda. Um espetáculo de luz, magia, cores e brilho. Uma lição de integração, inclusão social e diversidade, proporcionada pelo reisado “Flores de Mucugê”, composto por mais de 120 mulheres, entre elas a prefeita Ana Medrado e a secretaria de Turismo, Fabiana Profeta. “É um festa para todos, aqui estão gestoras, advogadas, procuradoras, promotoras, professoras, funcionárias públicas, garis, sem qualquer distinção. Somos todas iguais”, explica a prefeita Ana.

Responsável pela organização do terno nos últimos anos, dona Antonia Novais da Silva, uma alegre senhora que conserva o dinamismo nos seus 71 anos, conta com o apoio de dona Elieuza Profeta Pessoa, de 62 anos, e a assessoria de Veldélia Gomes da Silva, 73 anos, memória viva da festa e da história de Mucugê. Ela conta que participava do reisado desde criança, mas perdeu a visão e agora dedica-se a ajudar. “Tudo tem um tempo certo”, afirma lúcida e conformada, mas confessa que sente fala. Afirma ainda que a prefeita Ana, com o apoio e patrocínio da festa, resgatou e deu brilho à tradição de reis, que esteve esquecida nos últimos anos.

E brilho e cores não faltaram ao Reisado Flores de Mucugê, que esse ano contou com a participação de jovens, adolescentes e crianças, plantando as sementes que vão garantir a preservação da tradição. Aos 8 anos, a pequena Sofia, sobrinha e afilhada da secretaria Fabiana Profeta, e Maria Sofia, de 9 anos, neta da prefeita Ana, participavam da festa pela primeira vez. Risonhas, elas acompanharam o cortejo por mais de cinco horas, levando nas mãos o símbolo da estrela, sem demonstrar cansaço. Nos dois dias, o Reisado Flores de Mucugê fez praticamente o mesmo traçado, terminado no final da noite na Praça dos Garimpeiros.

Tanto no sábado como no domingo, as floristas concentraram-se em frente à casa da líder Antonia Novais, com suas roupas coloridas como o arco-íris e brilhando com lantejoulas, preparando-se para a grande marcha. Foi dada a partida. Distribuindo sorrisos e simpatia, a porta-estandarte Vanessa Paraguaçu, 28 anos, abria a procissão, seguida por duas belas jovens que transportavam o arco iluminado, símbolo das luzes que guiaram os três reis magos à manjedoura onde estava o Rei Jesus. Logo atrás, seguiam os três reis magos, caracterizados como Baltazar, Belchior e Gaspar.

E as floristas, formando duas filas, tendo ao centro um grupo de músicos, seguiam pelas ruas de Mucugê, levando cajados com lanternas e cantando sem parar uma animada música que dizia “Nós somos as flores de um lindo jardim florestal, nós somos as flores que viemos a Jesus adorar; flores, com seu perfume encantador, nesse dia de glória e de luz, nós queremos cantar e dançar…”. E o público seguia ao lado, empolgado e participativo.

Lembra-se de Ludimila Santana, cabelereira de 38 anos, que participou do reisado dos homens fantasiada de dinossauro? Lá estava ela, neta de garimpeiros, bela morena, vestida de florista, muito animada, ao lado da mãe, Lucineide, representando as gerações que cultivam a tradição. “Passei vários anos em São Paulo, mas voltei à minha terra”, disse Ludimila falando de sua felicidade em estar participando da festa.

E o cortejo seguiu até a Praça Santa Izabel, onde em frente da igreja do mesmo nome estava o presépio. Silêncio. Respeito. Reverência e celebração. Os três reis magos ajoelham-se diante do presépio. E a cantoria: “Desperta para adorar o Cristo, que nasceu para nossa salvação”.

Seguindo a programação, o cortejo seguiu para os locais previamente combinados, onde fariam as paradas, para solicitar presentes, doados na forma de bebidas e comidas. No sábado, os locais foram a pousada Refúgio na Serra, casa da prefeita Ana, pousada Recanto da Chapada e restaurante Point de Mucugê, da florista Janete, onde houve farta distribuição de refrigerantes, cerveja, vinhos, champanhe e lanches. Já neste domingo, as paradas foram no Café Odeon, Restaurante Sabor de Picanha, Restaurante Sabor e Arte, e na casa de Suzana Pierot Luz.

Diante destes locais, o pedido animado das floristas, enquanto dançavam ao som de todos ritmos: “Oh dona da casa, por Nossa Senhora, dá-me o que comer, senão vou embora….

E ao final, os agradecimentos: “As flores se despedem, saudosas e agradecidas pelas grandes gentilezas com que foram recebidas. Boa noite meus senhores, nós já vamos nos recolher, e levamos dessa noite alegrias e prazer”.

Diferente de sábado, quando logo depois da última apresentação o reisado se dispersou, neste domingo o terno, agora com os músicos à frente das floristas, concentrou-se na Praça do Garimpeiro, encerrando a festa com verdadeiro carnaval, com marchinhas e frevos, e a certeza de que no próximo ano tem mais.

Eu vi e contei tudo.

Lembra-se da Generosa, da música do reisado dos homens? “Eu vi, eu vi, eu vi e vou contar, vi a Genorosa namorando com Tonhá!… Quem é a Generosa? Eu a conheci, a prefeita me apresentou a ela. Mas esse segredo eu não vou contar…

Por Josalto Alves – Fotos: Euro Amâncio – Fonte: http://www.upb.org.br

Kleber Medrado

Kleber Medrado é Jornalista com registro profissional 0006598/BA, editor Chefe do SeLigaChapada.com.brDesde 2013 trazendo informações da região Chapadeira para o mundo.

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